Por que fazer o Curso de Fotografia Documental?

A jornada fotográfica não possui limites. O ato de olhar, ver e perceber exige uma certa disciplina de espírito, uma medida de concentração e organização de todos estes estímulos.

Desaparecimento
Certa vez, li em um livro chinês bastante antigo que, não encontra as respostas quem não ainda não sabe formular bem as suas perguntas. A melhor resposta é sempre curta, objetiva, mas a pergunta deve estar bem arranjada.
Uma resposta realmente valiosa é aquela que é dada através de um exemplo.

Bem, na fotografia documental antes de encontrar as resposas, precisamos organizar bem nossas perguntas, armazenar o insconsciente de um belo repertório, de boas referências.
O ato de ir ao mundo querendo colher seus parágrafos com uma câmera, seja ele um universo intimo ou amplo vai sempre exigir um certo método, um necessário processo que nos leva ao amadurecimento da percepção, do pensamento e da capacidade de construir uma narrativa através do que se vê e se colhe.

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Pois bem. Durante o curso de fotografia documental oferecemos um banquete de referências e trocas de idéias, a fim de aguçar, estimular e aumentar as possibilidades, orferecer alternativas e experiências que podem servir de caminhos futuros a todos aqueles que desejam se aventurar com sua câmera. Mas o espírito de aventura não se faz suficiente sem o olhar interno que nos permite juntar as peças e realmente resolver de maneira tangível tudo o experimentamos. O Documentarista é aquele sujeito mediador que tem o seu corpo atravessado por uma série de coisas e neste fluxo ele recolhe todos os sintomas mais significativos e as sutilezas mais pertinentes com o bjetivo  de compartilhar com o mundo, tudo aquilo que foi sentido e visto. Quem sabe nesta dança de ir e vir, nossas histórias, se bem contadas podem servir de combustível para os outros.

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Neste sentido, o curso de fotografia documental da fluxo é para todos aqueles que queiram aprender a contar melhor suas histórias a partir das imagens. Gosto de pensá-lo como algo bem mais amplo que um curso teórico onde o professor fala e o aluno anota e pergunta. Vamos bem além, atuamos como provocadores, facilitadores de processos e durante os encontros, iremos auxiliar o processo de construção do projeto de cada um, trazendo nossas experiências e mirando sempre o que existe de maior frescor nas possibilidades de potencilizar a contação de histórias imagéticas de cada um.
A experiência da fotografia é individual e coletiva, sempre.

Leo Caobelli, ministrante do curso é um contador como poucos, além de integrar o Coletivo Garapa, é um grande estudioso da fotografia documental e possui uma capacidade ímpar de orientador, é daqueles que consegue ver no outro suas melhores qualidades e apontar caminhos frutíferos para uma caminhada mais rica e proveitosa na fotografia.
Caobelli venceu junto com o GARAPA a Bolsa Zum de fotografia, um dos mais prestigiosos prêmios de fotografia do continente. Além disso, realizou um trabalho durante a copa do mundo para a a agência Magnum Photos. Bem se quer mais?
Vem fazer o curso!

 

Mais informações: http://escolafluxo.com.br/site/portfolio/fotografia-documental/

 

Post: Danilo Christidis

 

Romy Pocz abre exposição no Santander Cultural e mais…

Romy Pocz

É bonito ver artistas em plena ascensão, mais bonito ainda é ver isso de perto.
Romy Pocz abre hoje(19/08) sua exposição individual intitulada “Feira de Ciências” no Santander Cultural, sob curadoria de Guilherme Bueno. A exposição traz fotografias e videos das diversas expedições realizadas nos últimos anos, investigando as simulações de realidade e propondo outras narrativas ficcionais sobre o real.
Sem dúvida, o trabalho de Romy Pocz nos convida sempre a delírar entre distopias e refletir sobre nosso passado histórico.

Além da mostra no Santander Cultural, Romy é uma das artistas selecionadas para a Bienal de São Paulo e também abre outra exposição no dia de hoje, na Casa de Cultura Mário Quintana “Da Matéria Sensível – Afeto e Forma”, no Acervo do MAC/RS, sob curadoria de Bruna Fetter. Nesta exposição Coletiva, também participa a artista  Rochele Zandavali.

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Romy Pocz, Rochele Zandavali e Bruna Fetter fazem parte do corpo docente da Fluxo.

Segue abaixo o serviço das duas exposições:

FEIRA DE CIÊNCIAS
Mostra de Romy Pocztaruk, com curadoria de Guilherme Bueno, apresenta uma provocação sobre como a arte, por meio da fotografia, e a ciência, pelos seus métodos, ilude quem os vê.
Santander Cultural (Sete de Setembro, 1.028),
fone: (51) 3287-5500.
Abertura nesta quarta (19/8, somente para convidados).
De terça a sábado, das 10h às 19h, e domingos e feriados, das 13h às 19h. Até 28/9.

DA MATÉRIA SENSÍVEL – Afeto e Forma no Acervo do MAC/RS”
Adauany Zimovski, Antonio Augusto Bueno, Claudia Hamerski, Carla Borba, Carlos Asp, Ío (Laura Catani e Munir Klamt), Ismael Monticelli, Karin Lambrecht, Keyla Sobral, Lilian Maus, Marion Velasco, Milton Kurtz, Ricardo Cristofaro, Rochele Zandavalli, Romy Pocztaruk, Shirley Paes Leme, Tony Camargo e Vera Chaves Barcellos.

Abertura 19/08, a partir das 19h, no Museu de Arte Contemporânea (Galeria Sotero Cosme da CCMQ).
Rua dos Andradas, 736
Casa de Cultura Mario Quintana – CCMQ

Fluxo participa de Encontro sobre Economia Criativa da UFRGS

Com o objetivo de formar e difundir a massa crítica no campo da Economia Criativa, Cultura e Desenvolvimento, a UFRGS juntamente com o Ministério da Cultura cria o Observatório de Economia Criativa (OBEC), tendo seu lançamento oficial no próximo dia 11 de agosto. O OBEC visa fomentar projetos de arte e cultura que tenham em sua essência o espaço para a “convivência criativa”. Envolvendo um programa amplo de pesquisa, ensino e extensão qualificados, o projeto é coordenado pela Faculdade de Ciências Econômicas e pelo Departamento de Difusão Cultural e conta com a participação de outras unidades e de professores que atuam nesta nova área de conhecimento. A iniciativa é uma parceria com a Secretaria Nacional de Economia Criativa e têm como coparticipantes as universidades federais da Bahia, Fluminense, do Amazonas, de Goiás e a Universidade de Brasília.

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O lançamento desta nova plataforma se dará com 2 programações paralelas: o Encontro Conexões Criativas, que busca aproximar as ideias inovadoras de Porto Alegre, mostrando os movimentos inventivos das pessoas que praticam e contribuem para o desenvolvimento desta área, e com o Curso Economia da Cultura, Gestão e Desenvolvimento, que conta com a apresentação de profissionais envolvidos com o desenvolvimento do espaço inventivo da cidade. As atividades do curso ocorrem durante os turnos da manhã e da tarde, de 11 a 15 de Agosto, no Auditório da Faculdade de Ciências Econômicas (Av. João Pessoa, 52 UFRGS – Campus Centro).

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Para o Encontro Conexões Criativas foi convidado um seleto grupo de empreendedores de Porto Alegre para contar o processo de criação de seu negócio, como o mesmo se desenvolveu e a relação entre o processo criativo com o mercado e a comunidade. A Fluxo Escola de Fotografia Expandida fica honrada de fazer parte deste grupo dividindo com o público acadêmico nossas experiências e percepções sobre a economia criativa.

Projeto Vizinhança, Vila Flores, Galpón, Acervo Independente, Núcleo Urbanóide, Pirecco são alguns dos outros participantes que irão somar a este grande encontro! Não perde!

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Mais informações:

Sobre o Encontro Conexões Criativasclique aqui

Sobre o Curso Economia da Cultura, Gestão e Desenvolvimento: clique aqui

Data: de 11 a 14 de agosto
Local: Sala Fahrion (Av. Paulo Gama, 110, 2 andar – Prédio da Reitoria da UFRGS – Campus Centro)
Informações: obec@ufrgs.br

Curso Hand-Colouring: quando a pintura transforma a fotografia P&B

Por Rochele Zandavalli

Em agosto teremos mais uma edição do curso que ministro na Fluxo Escola de Fotografia Expandida com a também fotógrafa e artista visual Carine Wallauer. O Curso Hand-Colouring é um curso que une a arte da fotografia com a poética da pintura, tratando o ensino da colorização de fotografias de forma manual e criativa. Esta técnica, bastante tradicional, é atualizada e repassada aos alunos através do estudo de diversos artistas e fotógrafos contemporâneos que dela fazem uso em sua produção.

3H2B7303Feitas durante a captação fotográfica dos alunos, essas fotografias mostram um pouco do processo criativo diferenciado que eles vivenciam na escola e que permite uma nova experiência e relação com a fotografia analógica. Após a criação dos figurinos, cenários, objetos, e poses, chega a hora de clicar, para depois participar da revelação dos filmes e da ampliação das cópias em laboratório P&B. Os alunos participam de todo o processo inclusive posando uns para os outros, colaborando na elaboração de toda a cena fotografada e também têm a oportunidade de praticarem todos os processamentos em laboratório.  Após isso, é chegada a hora de trabalhar nas cópias, utilizando pincéis e aquarelas especiais, que permitem ao criador modificar  suas imagens, em busca de uma maior estetização, subjetividade e diferenciação de seu trabalho fotográfico.

A imaginação e criatividade dos alunos são fundamentais, pois se aliadas à correta e cuidadosa execução da técnica, permitem ao aluno chegar a resultados incríveis. Por ser uma técnica bastante rara, o destaque e admiração que têm suscitado no momento contemporâneo podem ser usados na busca de um processo mais criativo e autoral e de um resultado imagético inusitado e instigante, muito longe da banalização e repetição que pode ser identificada na área da fotografia no momento atual. Deixo com vocês um pouco da produção feita pelos alunos Maria Melgarejo e Luan Negreiros.

 

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ANATOMIA DE UM VIDEO ARTE

Para a festa de inauguração da Escola Fluxo em 2012, me foi pedido um trabalho para a exposição dos professores da escola. O convite me deixou perplexo. Apesar de me considerar fotógrafo, meu trabalho se dá em um universo diferente dos outros professores, já que como diretor de fotografia ilumino e enquadro “fotografias em movimento”. O diretor de fotografia, além disso, faz parte de uma estrutura colaborativa, onde há uma idéia (roteiro), que normalmente não é dele, e outros profissionais trabalhando no mesmo “patamar criativo”. Portanto, não tinha nenhuma obra, audiovisual ou fotográfica, que considerasse estritamente minha. Resolvi me colocar o desafio de produzir algo em poucas semanas e, postas as premissas anteriores, comecei a indagar sobre quais eram minhas motivações mais recônditas.

Durante a investigação, percebi que a compreensão técnica dos processos envolvidos na aquisição da imagem eletrônica esteve na base da minha formação como fotógrafo. Quase como um cientista, buscava entender os fundamentos da imagem em um nível de engenharia, tentando emular em outra época aquilo que os pioneiros do passado desvendaram dos processos fotoquímicos da imagem analógica.

Neste percurso, descobri a utilização de instrumentos eletrônicos de leitura da imagem, sendo o mais importante deles o monitor de forma de onda ou, em inglês, waveform monitor. Ao contrário do fotômetro que está baseado em uma célula fotossensível e mede áreas específicas da imagem baseada em uma referência de cinza, o waveform lê a eletricidade envolvida da formação da imagem eletrônica. Sendo que cada tom na escala que vai do branco ao preto produz uma variação de microvolts específica. Percebi que este aparato dialogava não apenas com questões técnicas relativas à produção da imagem, porém tinha um potencial de criar discurso, uma poética.

 

Anexo

 

Acima é possível apreciar o uso comum do monitor forma de onda.

 

O video arte Opening Scene busca criar um diálogo entre técnica e linguagem, produzindo um outro olhar sobre uma cena do filme Lavoura Arcaica, de Luis Fernando Carvalho. Na cena em questão, o protagonista se masturba e acompanhando sua evolução escutamos o som crescente de um trem. Ora, ao visualizar a cena através do monitor waveform, percebi que o sentido da cena se mantinha, que algo/alguém realmente ainda se movimentava ali com o frenesi de uma locomotiva.

 

Abaixo compartilho o video. Sugiro o uso de fones de ouvido e colocar em tela cheia.

http://vimeo.com/64578329

Talvez o sentido produzido advenha da sugestão já criada pela descrição prévia da cena, no entanto algo me faz acreditar, que apesar da inovação no uso do aparato, há uma relação anterior dessas imagens com nosso inconsciente. Um desenvolvimento de algo cujo início data da descoberta do fogo, onde imagens disformes e mutantes se projetavam nas paredes das cavernas. Afinal, quem disse que saímos dela?

OFFSIDE BRAZIL

Quem me conhece sabe que fiz diversos planos de viagem durante a copa: ir pro litoral uruguaio, ir a Montevideo, ir pra praia do Grant em Santa Catarina. Queria fugir da reprise de Junho de 2013, por preguiça e por falta de coragem. Imaginei esse momento em que ambos os lados se chocam sem direito a meio termo, o Estado militarazido contra os movimentos populares. Pau, pedra, fogo, tudo… Num momento bem Regina Duarte, acho que tive medo.

 

Mas o modismo uruguaio pôs tudo a ser caro mesmo no inverno e o pessoal que ia me encontrar no meio do caminho, ali em Santa Catarina, não pareceu muito certeiro no destino. Fiquei e comprei uma TV nessas promoções da Copa. Jurei que não era por conta dos jogos, mas pelo botão do Netflix no controle e a saída HDMI pra assistir toda filmografia do Tarkovski em fullHD (o que eu já teria feito se não insistisse em ver as 7 temporadas de How I Met Your Mother). Vi o jogo do Brasil na estréia e Holanda X Espanha no dia seguinte. Depois teve Uruguai, Itália, Argentina, um sem fim de jogos pra assistir e quebrar o juramento da compra da TV (assisti dois terços de Nostalgia antes de começar Alemanha e Portugal e era isso).

 

Na metade da segunda semana da Copa, logo depois do 0×0 entre Brasil e México, resolvemos fazer um “hang out” da Garapa para colocar os assuntos em dia já que trabalhos, prêmios, editais e toda uma lista começava a se acumular com a chegada da Copa. Foi aí que Rodrigo veio com a novidade, no melhor estilo de quem é convocado depois que alguém quebra a perna, fomos chamados para participar da cobertura Offside Brazil – uma parceria da Magnum Photos com o Instituto Moreira Sales – depois da saída do Júlio Bittencourt do projeto. Cinco fotógrafos da Magnum, dois coletivos e quatro fotógrafos brasileiros compõe a equipe que fotografa a Copa fora do estádios.

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Como a copa já tinha começado e a maioria dos outros fotógrafos já estava em atividade, tínhamos que pensar rápido em um tema e começar a produção ainda nessa segunda semana do mundial. Trocamos 5 emails até chegarmos no conceito que estamos trabalhando atualmente: o território da Zona de Exclusão da FIFA. Trabalhos recentes do coletivo como A Margem (http://www.garapa.org/amargem/), Dissonante, Vago (http://garapa.org/dissonante/) e o documentário Doble | Chapa (http://garapa.org/portfolio/doble-chapa/), abordam questões relativas a territórios e limites, foi então natural pensarmos em um tema que estivesse ligado às nossas pesquisas e desse continuidade a nossos experimentos de narrativa e linguagem. O primeiro passo foi ir atrás da definicação dessa Zona de Exclusão. Chamada pela Fifa de Zona de Restrição Comercial, não consistem em em cercas físicas, mas sim em linhas imaginárias e ocupam um perímetro máximo de 2km ao redor dos locais oficiais de competicão. Partimos para os mapas de SP e POA para entender quais eram os limites dessas Zonas e instintivamente fomos procurá-las no google street view para ver como se pareciam. Qual seria a rotina dessa fronteira criada em dias de jogo? Como são feitas as barreiras? Como se desenham esses limites?

 

Foi com essas perguntas em mente que, no dia 20/06, fizemos nossa primeira saída de recohecimento em Porto Alegre, dois dias antes de Argélia e Coréia do Sul no Beira Rio. Começávamos ali a entender esses limites e o território fronteiriço que se desenhava. Por definição limite territorial é a linha imaginária desenhada no mapa, já fronteira é um território que se estende para os dois lados do limite. Transitamos então por mais uma fronteira buscando por algo que a caracterize, algum traço de sua identidade.

LC_Garapa_POA_20_06_07 LC_Garapa_POA_20_06_10 A brazilian soccer fan at Rio Guaíba riverbank. (c) Garapa _MG_9437 Police officers unloading the fences for FIFA Exclusion Zone (c) Garapa

 

Ao receber as primeiras imagens dessa série, a diretora de arte da Magnum Daria Birang, sugeriu a montagem em trípticos já que, segundo ela “vocês estão trabalhando em uma série real, que também pode ser vista como uma pesquisa. Nem todas as imagens funcionarão de maneira individual, mas apresentadas como uma espécie dessa linha que vocês buscam em torno dos estádios, reforçarão esse conceito”.

 

Além dos trípticos também trabalhamos algumas imagens individuais: retratos ou cenas com maior capacidade de síntese. Aos poucos vamos formando um banco imagético dessa fronteira em São Paulo e Porto Alegre, entendendo onde elas se aproximam ou se afastam. Hoje, dia 30, enquanto esse texto estiver sendo publicado, estarei a bordo do navio da Marinha que estabelece a Zona de Exclusão dentro do Gauíba. Uma fronteira dentro d´água, a linha imaginária por excelência.

E fico feliz em não ter ido viajar.

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Mais sobre o Offside Brazil:

http://revistazum.com.br/radar/magnum-e-ims/

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/06/1477351-projeto-da-agencia-magnum-com-brasileiros-documenta-o-pais-na-copa.shtml

http://paratyemfoco.com/blogpef/ta-tendo-copa/

http://www.espnfc.com/story/1910257

http://www.espnfc.com/story/1904370

http://www.espnfc.com/story/1901647

https://www.facebook.com/offsidebrazil

“Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera”

O desafio que me impus ao vir para Portugal participar do projeto Um Diário da República* é o de retratar um país não apenas pelo que ele é hoje, mas pelo que um dia foi e, principalmente, pelo que pretendeu ser.

 

O projeto que estou desenvolvendo nessa minha temporada lusitana (e que aqui apresento algumas fotos), se delineou em minha cabeça no momento em que deparei-me com a frase final do livro O ano da morte de Ricardo Reis, do escritor português José Saramago: “Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera” – uma inversão melancólica do célebre verso de Luís de Camões (“Eis aqui, quase cume da cabeça / De Europa toda, o Reino Lusitano, / Onde a terra se acaba e o mar começa”).

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No caderno de notas que mantenho comigo durante essa residência, tento descrever o projeto, no dia 9 de abril, da seguinte maneira: “ ‘Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera’ pretende ser um ensaio sobre Portugal no ano de 2014. Porém, não exatamente sobre a Portugal da crise econômica, da Troika e dos protestos, mas sim sobre esse país de dimensões mínimas que um dia sonhou em ser o maior império do mundo, que se lançou aos mares e reclamou a posse de mais terras que qualquer outra nação na história. É também sobre o fim desse período e o processo de entropia decorrente.”

 

Passado alguns meses desde que escrevi essa nota – e chegando ao período final da residência – sinto que soa um tanto pretenciosa minha intensão. Mas essas palavras – ou melhor, esse sentimento que tenho em relação a Portugal e sua história – são uma espécie de guia, de roteiro para percorrer e explorar um território que para mim é desconhecido.

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Na verdade, gosto de pensar (ou talvez fantasiar) que meu processo tem uma certa ligação com os exploradores dos séculos XVIII e XIX, aqueles das chamadas “expedições filosóficas”. Ou seja, percorro um território e coleto impressões sobre o que encontro, não num processo de registro, mas de interpretação dos vestígios que a paisagem apresenta.

 

Nesse processo de coleta e interpretação, pretendo construir um corpo de trabalho que funcione em certa medida como um mapa, onde algumas direções são apontadas, alguns caminhos traçados, sugerindo uma interpretação possível (e muito partícular) sobre Portugal – tanto a que atualmente passa por uma forte crise econômica, quanto aquela que em tempos idos desbravou os caminhos marítimos do mundo.

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* Iniciado em 2010, ano em que Portugal celebrou o centenário da proclamação da República, o projeto Um Diário da República pretende contribuir para a construção de uma memória coletiva sobre o período 2010-2020 em Portugal. Ao longo desta década os fotógrafos do coletivo português Kameraphoto se propõem a documentar os acontecimentos ocorridos em Portugal. Para a edição de 2014, a Kameraphoto selecionou cinco fotógrafos de fora do coletivo para produzirem projetos para integrar o Diário da República. O material produzido nas edições anteriores está disponível no site do projeto: www.umdiariodarepublica.com

“Eu sou um jogador. Resolvi ir com a Companhia (E) na primeira leva.”

Imagine que o País que você vive está em conflito, você tem 17 anos, é preso e agora você deve deixá-lo, sozinho. Agora, não  suficiente, seu continente todo entra em guerra e você também deve deixá-lo. Você se muda, e lá onde você tenta “retomar” a vida, você também não é “aceito” sendo considerado um possível estrangeiro inimigo .  Bem, pegue todas estas adversidades, mude de nome e torne-se um dos maiores personagens e fotógrafos de todos os tempos. Muito prazer, Robert Capa.

Robert Capa

Hoje, dia 6 de junho  completam exatos 70 anos da invasão das tropas aliadas a Normandia, e lá, quando todos carregavam fuzis, estava o hungaro Endre Friedmann, mais conhecido como Robert Capa, empunhando uma Contax, na  primeira leva de anfíbios que atracaram na praia francesa.

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Bob Capa tinha 30 anos e se arrastava numa manhã bastante cinzenta pela areia e ondas  com os olhos atentos ao seu visor e em sua própria pele. No livro “Ligeiramente fora de foco”, editado no Brasil pela Cosac Naif, podemos acompanhar todos os passos, situações, reflexões e angústias deste então jovem homem durante toda a suas trajetória na segunda grande guerra, com detalhes e humor impressionantes, numa habilidade narrativa pouco encontrada. Capa desejava ser cineasta, escreveu o livro pensando num formato de roteiro e me espanta que até hoje nenhum estúdio tenha feito uma adaptação ao cinema desta incrível obra documental de um dos maiores fotografos da história, sobre um dos acontecimentos mais drámaticos de nossa época.
Transcrevemos aqui em nosso blog o capítulo em que Capa narra sua experiência no DIA D.

Respirem fundo, apertem os cintos e boa leitura…

 

“Verão de 1944

 

Uma vez por ano, geralmente em algum momento de abril, toda família judia que se desse ao respeito comemorava o Pessach, o Dia  de Ação de Graças judeu. A comemoração do Pessach, ou o Dia da  Travessia, segue um script semelhante ao do Dia de Ação de Graças,  sendo que a única diferença entre as duas é que na festa do Pessach  tem tudo, peru também, e que as crianças deste Velho Mundo ficam  ainda mais enjoadas do que as do novo mundo.

Quando o jantar está irrevogavelmente encerrado, o pai afrouxa  seu cinto e acende um charuto de cinco centavos. Nesse momento  crucial, o filho mais novo (eu fiz isso durante anos) levanta-se e dirige-se solenemente ao pai em hebraico. Pergunta: “O que torna este dia diferente de todos os outros dias?”. Então, o pai, com muito prazer  e animação, conta a história: que muitos milênios atrás, no Egito, o  anjo da destruição poupou da morte todos os primogênitos do Povo Escolhido e que, depois, o general Moisés os conduziu através do Mar Vermelho sem que os pés se molhassem.

Os gentios e judeus que atravessaram o Canal da Mancha no dia 6 de junho de 1944, desembarcando na praia da Normandia batizada de “Easy Red”, com os pés muito molhados, deveriam receber, uma vez  por ano, nessa data, uma festa da Travessia. Seus filhos, depois de comer algumas latas de ração C, perguntariam ao pai: “O que torna este dia diferente de todos os outros dias?”. A história que eu contaria poderia soar assim:

Os homens condenados a passar aquela primavera nas praias francesas estavam concentrados em imensos campos na costa sudeste da Inglaterra. Os campos eram cercados com arame farpado, e ao entrar  pelos portões você já estava a meio caminho do canal. Dentro, estávamos sendo preparados para nossa viagem. Tínhamos de trocar nossas notas de dólar e libras legítimas por francos da invasão impressos em papel fino. Recebemos uma lista com centenas de itens que nos diziam o que o visitante bem-vestido estaria usando  nas praias francesas durante a temporada de 1944. Além disso, recebemos um livrinho nos dizendo como deveríamos nos dirigir aos nativos.  Havia algumas abordagens úteis em francês:

Bonjour, monsieur, nous sommes les amis américains. Isso para dizer aos homens. Bonjour, mademoiselle, voulez-vous faire une promenade avec moi?* Isso para dizer às garotas. A primeira queria dizer “Senhor, não me dê um tiro”; a segunda podia significar qualquer coisa.

Havia outras sugestões de como lidar com os nativos de um país  diferente, que esperávamos, por alguma razão, encontrar em grande número naquelas praias. Eram convenientes frases em alemão que prometiam cigarros, banhos quentes e toda sorte de mimos em troca do simples ato de uma rendição incondicional. Era, deveras, uma leitura promissora. Cada peça de nossa roupa tinha de ser à prova de gás, à prova d’água e camuflada nas muitas cores variadas de nossa futura paisagem. Feitos esses preparativos, estávamos prontos e à espera do tal  dia chamado D.

PAR77853Estávamos todos sofrendo de um estranho mal-estar conhecido como “anfíbia”. Ser uma tropa anfíbia tinha apenas um sentido para nós: teríamos de ficar infelizes na água antes de ficarmos infelizes em terra. Não havia exceções. O único personagem que é anfíbio e feliz é o crocodilo. Havia graus diferentes de “anfíbia”, e os que  estavam escalados para serem os primeiros a chegar à praia eram os casos mais graves.

O porto de Weymouth estava em polvorosa. Navios de combate, navios de tropas, cargueiros e embarcações de desembarque, todos misturados. Flutuando no ar acima deles uma barragem de balões feita de muitas centenas de dirigíveis prateados. Os futuros turistas na França estavam tomando banho de sol nos deques dos barcos e observando preguiçosamente os brinquedos gigantes que içavam para bordo. Para os otimistas, todos eles eram alguma nova arma secreta, sobretudo vistos de longe.

Omaha_Beach_Landing_Craft_ApproachesEm meu navio, o U.S.S. Chase, a população dividia-se em três categorias: os planejadores, os jogadores e os escritores de últimas  cartas. Os jogadores eram encontrados no deque superior, reunidos em torno de um par de dadinhos, colocando milhares de dólares no
cobertor. Os escritores de últimas cartas se escondiam nos cantos e punham no papel lindas frases deixando suas armas de fogo favoritas para irmãos menores e seu dinheiro para a família. Quanto aos planejadores, ficavam na sala de ginástica no porão do navio, deitados de barriga para baixo em tapetes de borracha sobre o qual haviam  montado uma miniatura de cada casa e árvore da costa francesa. Os líderes de pelotão escolhiam o caminho que seguiriam entre as aldeias de borracha e procuravam proteção atrás das árvores de borracha e em trincheiras de borracha sobre aqueles tapetes. Tínhamos também minúsculos modelos de cada navio e nas paredes, embaixo, havia placas dando os nomes das praias e dos setores específicos: “Fox Green”, “Easy Red” e outras, todas as partes da praia “Omaha”.

A bordo do navio de transporte da Guarda Costeira  dos Estados Unidos, Samuel Chase, ancorado diante  de Weymouth, lnglaterra, 1-5 jun.1944 As tropas planejam os desembarques do Dia D, com uma manquete da praia na costa da Normandia apelidada de “Omaha”.

O almirante e sua equipe haviam se reunido na sala de ginástica e estavam empurrando os naviozinhos para cá e para lá até  chegarem às praias pintadas nas paredes. Eles os empurravam com  muita habilidade. De fato, quanto mais eu olhava aqueles cavalheiros condecorados brincando no chão, mais eu era tomado por uma terrível confiança. Acompanhei os procedimentos do piso da sala de ginástica com interesse e respeito. O U.S.S. Chase era uma nave-mãe que levava barcaças de assalto para soltar a dez milhas da costa francesa. Eu tinha  de resolver e escolher uma barcaça e uma árvore de borracha para me esconder na praia. Era como observar uma porção de cavalos de corrida dez minutos antes da hora da partida. Em cinco minutos, as apostas teriam de estar feitas. Por um lado, os objetivos da Companhia B pareciam interessantes, e ir com eles parecia uma aposta bastante segura. Porém eu conhecia muito bem a Companhia E e a história que eu tinha vivido com aqueles homens na Sicília rendera um dos meus melhores artigos durante a guerra. Eu estava a ponto de escolher entre as Companhias B e E quando o coronel Taylor, comandante do 16º Regimento de Infantaria da 1ª Divisão, a força de ataque, me soprou que o quartel regimental seguiria logo atrás das primeiras levas de infantaria. Se eu fosse com ele, não perderia a ação e estaria um pouco mais seguro. Isso me pareceu um favorito de verdade, uma aposta certa, dois por um que estaria vivo ao anoitecer.

Se nesse ponto meu filho me interrompesse e perguntasse: “Qual a diferença entre o correspondente de guerra e qualquer outro  homem fardado?”, eu responderia que o correspondente de guerra consegue mais drinques, mais garotas, melhor pagamento  e mais liberdade do que soldado, mas que, nesse estágio do jogo, ter a liberdade de escolher com quem seguirá e ter permissão de ser um covarde sem ser executado por isso é a sua tortura. O correspondente de guerra tem sua aposta ( sua vida) nas próprias mãos e pode colocá-la neste ou naquele cavalo, ou pode colocá-la de volta no bolso no último minuto.

 Eu sou um jogador. Resolvi ir com a Companhia E na primeira leva.

03Assim que decidi que iria com as primeiras tropas de assalto, comecei a me convencer de que a invasão ia ser moleza e que toda a conversa sobre a “impenetrável muralha do oeste” era apenas propaganda  alemã. Subi ao convés e dei uma boa olhada na costa inglesa, que já  desaparecia. O fulgor esverdeado da ilha sumindo tocou meu ponto  fraco e me juntei à legião de escritores de últimas cartas. Meu irmão podia ficar com minhas botas de esqui e minha mãe podia convidar  alguém da Inglaterra para ficar com ela. A ideia era desagradável e nunca enviei a carta. Dobrei-a e guardei no bolso do peito.

Então me juntei à terceira categoria. Às duas da manhã, o alto-falante do navio interrompeu nosso jogo de pôquer. Pusemos nosso  dinheiro nos cintos à prova d’água e fomos brutalmente lembrados de que a Coisa era iminente. Prenderam em mim uma máscara de gás, um salva-vidas inflável, uma pá e alguns outros objetos, e eu dobrei minha caríssima capa de chuva Burberry sobre o braço. Eu seria o invasor mais elegante de todos.

Nosso café da manhã pré-invasão foi servido de madrugada, às três. Os garçons do U.S.S. Chase usavam imaculadas jaquetas brancas e  serviram com especial atenção e polidez bolos quentes, salsichas, ovos e café. Mas os estômagos pré-invasão estavam preocupados e a maior parte do nobre esforço deles ficou nos pratos. Às quatro da manhã, estávamos reunidos no convés aberto. As embarcações de desembarque balançavam nos guindastes, prontas para serem baixadas. À espera dos primeiros raios de luz, os 2 mil homens se mantinham no mais perfeito silêncio; independentemente do que estivessem pensando, era uma espécie de oração. Ancorado diante da praia “Omaha”, Normandia, 6 jun. 1944 Início da manhã do Dia D: tropas americanas entram nas  embarcações que as levariam à praia. Eu também fiquei muito quieto. Estava pensando um pouco em  tudo: em campos verdes, nuvens cor-de-rosa, carneiros pastando, nos bons momentos e pensava muito em tirar as melhores fotos do dia. Nenhum de nós estava nada impaciente, e não nos importaríamos de ficar parados no escuro durante um longo tempo. Mas o sol não tinha como saber que esse dia era diferente de todos os outros e subiu em seu horário normal. Os primeiros saltaram para suas barcaças e, como se estivéssemos em lentos elevadores, descemos para o mar. A água estava agitada e ficamos molhados antes mesmo de as barcaças se afastarem da nave-mãe. Era evidente para mim que o general Eisenhower não lideraria seu povo na travessia do canal com os pés secos. Não demorou muito, os homens começaram a vomitar. Mas aquela era uma invasão polida, além de cuidadosamente preparada, e tinham fornecido saquinhos de papel com essa finalidade. Logo o vomitar ficou pior do que nunca. Eu vislumbrei que aquilo ia se transformar no pai e mãe de todos os Dias D.

05A costa da Normandia ainda estava a quilômetros de distância  quando os primeiros zumbidos inconfundíveis chegaram aos nossos ouvidos atentos. Nós nos abaixamos na água vomitada do fundo da embarcação de desembarque e paramos de olhar o litoral que se aproximava. A primeira, que já havia desembarcado suas tropas na praia, passou por nós voltando para o Chase, e o contramestre negro nos deu um largo sorriso e fez o V da vitória. Já estava claro o bastante para fazer fotos e eu tirei minha primeira câmera Contax de sua proteção à prova d’água. O fundo chato da barcaça tocou terra francesa. Ocontramestre baixou a frente da barcaça e ali, em meio ao desenho dos grotescos obstáculos de aço espetados para fora da água, havia uma fina faixa de terra coberta de fumaça: nossa Europa, a praia “Easy Red”.

Minha bela França parecia sórdida e nada convidativa, e uma metralhadora alemã, cuspindo balas em direção da barcaça, estragoutotalmente meu retorno. Os homens ao meu lado chapinhavam na água. Mergulhados até a cintura, com rifles prontos para atirar, com os obstáculos de invasão e a praia enfumaçada ao fundo, era o que bastava para o fotógrafo. Parei um momento na prancha de desembarque para fazer  minha primeira foto pra valer da invasão. O contramestre, que estava com uma pressa compreensível para sair dali o mais rápido possível, confundiu o meu fotografar com uma compreensível hesitação e me ajudou a me decidir com um bem aplicado chute na bunda. A água estava fria, e a praia ainda a mais de cem metros. As balas abriam buracos na água à minha volta, e eu corri para o obstáculo de aço mais próximo. Um soldado chegou ao mesmo tempo e durante alguns minutos repartimos o escudo. Ele tirou a proteção à prova d’água de seu rifle e começou a atirar sem mirar muito na fumaça que cobria a praia. O som de seu rifle lhe deu coragem suficiente para avançar e ele deixou o obstáculo para mim. Estava uns trinta centímetros mais folgado e me senti suficientemente seguro para fazer fotos dos outros sujeitos escondidos como eu. Era muito cedo ainda e muito cinza para fotos boas, mas a água cinzenta e o céu cinzento tornavam muito interessante a cena dos  homenzinhos abaixados atrás dos objetos surrealistas concebidos pela junta de gênios anti-invasão de Hitler.

CAR194404CW00003/ICP586Terminei minhas fotos e o mar estava frio dentro de minha calça. Relutante, tentei me afastar do poste de aço, mas as balas me traziam de volta todas as vezes. Cinquenta metros na minha frente, um dos nossos tanques anfibios semicarbonizado se projetava fora da superfície da água e me ofereceu meu próximo abrigo. Fiz um balanço da situação. Não haveria muito futuro para a capa elegante, que pesava  sobre meu braço. Eu me desfiz dela e corri para o tanque. Abrindo caminho entre corpos flutuantes eu cheguei até ele, parei para mais umas fotos e criei coragem para meu último trecho até a praia. Os alemães estavam tocando todos os seus instrumentos e eu não conseguia achar um espaço entre as bombas e balas que bloqueavam os últimos dez metros de praia. Fiquei atrás do tanque, repetindo uma pequena frase dos tempos da Guerra Civil Espanhola: “Es una cosa muy seria. Es una cosa muy seria“. Isto aqui é uma coisa muito séria.

A maré estava subindo e a água agora atingia a carta de despedida para minha família no bolso do meu peito. Usando como escudos os dois últimos sujeitos a descer, cheguei  àpraia. Me atirei ao solo e meus lábios tocaram a terra da França. Não senti nenhum desejo de beijá-la.

Os alemães ainda tinham muita munição e eu desejava ardentemente que pudesse estar abaixo do solo por um tempo, para depois voltar à superfície. As chances de acontecer o oposto disso estavam ficando cada vez maiores. Virei a cabeça e dei de cara com o tenente de nosso último jogo de pôquer da noite anterior. Ele me perguntou se eu sabia o que ele estava vendo. Eu disse que achava que ele não devia estar vendo muita coisa além da minha cabeça.

- Vou te dizer o que eu estou vendo – ele sussurrou. – Estou vendo
minha mãe na varanda de casa, abanando a minha apólice de seguro.

St. Laurent-sur-Mer deve ter sido, em algum momento, uma estância barata para professores franceses em férias. Ali, em 6 de junho de 1944, era a praia mais feia de todo o mundo. Exaustos pela água e pelo medo, estávamos deitados de bruços na estreita faixa de areia  molhada entre o mar e o arame farpado. A inclinação da praia nos dava alguma proteção das balas de metralhadoras e rifles, contanto que ficássemos deitados, mas a maré nos empurrava para o arame farpado, onde estava aberta a temporada de caça para os atiradores. Eu rastejei até meu amigo Larry, o padre irlandês do regimento, capaz de xingar melhor que qualquer amador. Ele rugiu para mim: “Desgraçado afrancesado! Se não gostava daqui por que foi que voltou?”. Assim, reconfortado pela religião, tirei minha segunda câmera Contax e comecei a fotografar sem levantar a cabeça.

1944_par121453Vista de cima, a “Easy Red” devia parecer uma lata de sardinhas aberta. Fotografando do ângulo da sardinha, o primeira plano de minhas fotos ficava cheio de botas e caras verdes. Acima das botas e dos rostos, minhas fotos estavam cheias de fumaça de disparos; tanques queimados e barcaças semiafundadas completavam a cena.

Larry tinha um cigarro seco. Peguei o frasco prateado do bolso de trás e ofereci um trago a Larry. Ele inclinou a cabeça de lado e tomou um  gole pelo canto da boca. Antes de me devolver o frasco, ele o deu a seu outro companheiro, o médico judeu, que muito habilmente imitou a técnica de Larry. O canto de minha boca era o que me bastava também.

O morteiro seguinte caiu entre o arame farpado e o mar e cada estilhaço encontrou o corpo de um homem. O padre irlandês e o médico judeu foram os primeiros a se pôr de pé na praia “Easy Red”. Fiz a foto. O morteiro seguinte caiu ainda mais perto. Eu não ousava tirar o olho do visor da minha Contax e disparava foto após foto. Meio minuto depois, minha câmera parou: o rolo de filme tinha terminado.
Procurei na bolsa outro rolo, e minhas mãos molhadas, trêmulas, estragaram o rolo antes que pudesse inseri-lo na câmera.

Parei um momento … e aí aconteceu.

A câmera vazia tremia em minhas mãos. Um novo tipo de medo sacudia meu corpo dos pés à cabeça, retorcia meu rosto. Desenganchei a pá e tentei cavar um buraco. A pá bateu numa pedra debaixo da areia e joguei-a fora. Os homens à minha volta estavam imóveis. Apenas os mortos na superfície se mexiam ao sabor das ondas. Um barco da infantaria enfrentou o fogo e despejou de dentro dele médicos com cruzes vermelhas pintadas nos capacetes. Não pensei duas vezes, não tive nem de resolver. Simplesmente me levantei e corri na direção do barco. Entrei no mar entre dois corpos e a água chegava ao meu pescoço. A maré golpeava meu corpo, e cada onda esbofeteava meu rosto  debaixo do capacete. Levava as câmeras acima da cabeça e de repente entendi que estava fugindo. Tentei voltar, mas não consegui encarar a praia e disse a mim mesmo: ”Vou só enxugar as mãos nesse barco”.

Cheguei ao barco. Os últimos médicos estavam descendo. Subi a bordo. Ao chegar ao convés senti um choque e de repente estava todo
coberto de penas. Pensei: “O que é isto? Alguém está matando galinhas?”. Então vi que a superestrutura do barco havia sido destruída e que as penas eram do forro dos casacos salva-vidas dos homens que tinham sido atingidos pela explosão. O capitão estava chorando. O corpo de seu assistente, atingido na explosão, tinha acabado de cair em pedaços sobre ele.

Ao largo da praia “Omaha”, 6 jun. 1944 Médicos cuidam dos homens feridos na primeira leva do Dia D. A bordo do U.S.S. Henrico, ao largo da praia “Omaha”, 6 jun. 1944 Os corpos de alguns dos homens mortos na primeira leva. Nosso barco estava adernando e lentamente nos afastávamos da praia tentando chegar à nave-mãe antes de afundar. Desci para a casa de máquinas, sequei as mãos e pus filmes novos em ambas as câmeras. Subi de novo para o convés, a tempo de fazer uma última foto da praia coberta de fumaça. Então tirei algumas fotos do pessoal fazendo transfusões no convés. Uma embarcação de desembarque emparelhou conosco e nos tirou do barco que afundava. A transferência dos feridos graves em mar agitado era difícil. Não fiz mais fotografias. Estava ocupado carregando macas. Fomos levados ao U.S.S. Chase, o mesmo
barco que eu havia deixado seis horas antes. No Chase, a última leva da 16ª Infantaria se preparava para partir para a batalha, mas os conveses
já estavam cheios dos mortos e feridos trazidos de volta.

Era minha última chance de voltar à praia. Não voltei. Os recrutas que tinham servido nosso café da manhã de madrugada, de jaquetas brancas e luvas brancas, estavam agora cobertos de sangue, costurando os mortos em sacos brancos. Os marujos recolhiam macas das  barcaças que afundavam em torno. Comecei a fotografar. Então as coisas ficaram confusas …

Acordei num catre. Meu corpo nu debaixo de um cobertor áspero. Em meu pescoço, um pedaço de papel dizia: “Caso de exaustão. Sem plaqueta de identificação”. Minhas câmeras estavam em cima da mesa e eu me lembrava quem era. No catre ao lado, havia outro jovem nu, os olhos fixos no teto. A etiqueta em seu pescoço dizia: “Caso de exaustão”. Ele disse: “Sou um covarde”. Era o único sobrevivente de dez tanques anfíbios que tinham desembarcado antes das primeiras levas da infantaria. Todos os tanques haviam afundado no mar agitado. Ele disse que devia ter  ficado na praia. Eu disse que também devia ter ficado na praia. Os motores roncavam, nosso barco estava voltando para a Inglaterra. Durante a noite, o homem do tanque e eu batemos no peito, cada um insistindo que o outro era inocente e atribuindo toda a culpa a si mesmo.

De manhã, atracamos em Weymouth. Um bando de jornalistas famintos que não tinham tido permissão para acompanhar a invasão estava nos esperando no píer para recolher as primeiras experiências pessoais de homens que tinham chegado à cabeça de praia* e voltado. Fiquei sabendo que o único outro fotógrafo correspondente de guerra destacado para a praia “Omaha” tinha voltado duas horas antes sem sair do barco e sem tocar a praia. Estava agora a caminho de Londres com seu tremendo furo. Eu fui tratado como herói. Me ofereceram um avião para voltar  a Londres para dar uma entrevista no rádio sobre minha experiência. Mas eu ainda me lembrava muito bem do que havia passado de noite e recusei. Pus meus filmes na bolsa de imprensa, troquei de roupa e voltei para a cabeça de praia poucas horas depois, no primeiro barco disponível. Sete dias depois, fiquei sabendo que as fotos que eu tinha tirado na “Easy Red” eram as melhores da invasão. Mas o animado assistente do laboratório, ao secar os negativos, havia usado calor demais, e as emulsões derreteram e escorreram diante de todos os olhos do escritório de Londres. Do total de 106 fotos apenas oito se salvaram. As legendas debaixo das fotos borradas pelo calor diziam que as mãos de Capa estavam tremendo muito.

 

* Área conquistada em litoral inimigo para o desembarque das tropas. [N. E.]

 

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De volta à praia naquela noite, encontrei meus colegas no celeiro de  uma casa de fazenda normanda, onde tinham instalado o primeiro  acampamento de imprensa na França. Estavam acocorados na palha em torno de duas velas pela metade, bebendo um líquido amarelo de um galão. Uma máquina de escrever fechada servia de mesa. O dia era D mais dois, a bebida era uma aguardente normanda de maçã chamada Calvados e a festa era uma vigília francesa em minha homenagem. Eu havia sido dado por morto por um sargento que vira meu corpo flutuando no mar com as câmeras no pescoço. Eu estivera desaparecido por 48 horas, minha morte se tornara oficial e meus obituários liberados pelo censor. A súbita materialização de meu sedento fantasma encheu meus amigos de repulsa por desperdiçarem seus sentimentos, então eles me apresentaram ao Calvados.”

 

 

 

Comentário sobre pose, pausa e nossos fantasmas.

O retrato fotográfico é utilizado como um dos dispositivos mais eficazes na criação de uma documentação idealizada ou ficcionalizada de nossas vidas, mas foi encarado historicamente também como atestado biográfico ou prova cabal da existência. Na mão dos artistas essa dupla natureza do retrato sempre foi tensionada. Eles exploraram a potência e a ambiguidade criada entre a realidade testemunhal e a criação de máscaras sociais ou fictícias.  Seguindo o pensamento de Annateresa Fabris, encaro o retrato como corte temporal, pose e pausa, estabelecendo uma distinção entre pessoa e sujeito. O sujeito visto como corpo biológico que está sujeito ao envelhecimento e à morte, e a pessoa – máscara, representação – vista como produto construído, cultural e socialmente.

Eu encaro a arte e as imagens produzidas desta forma, como um meio para o autoconhecimento e a transformação: do eu, do outro, do mundo. Para mim, é uma espécie de morte simbólica que permite nascer poeticamente. Isso, no entanto, não pode acontecer com meu corpo biológico. Ele está envelhecendo e vai morrer uma única vez. Dessa forma, a fotografia como técnica que detém o momento, que o eterniza, é utilizada por mim como consolo, como conforto poético diante do temor da morte e da passagem do tempo. A fotografia é, por outro lado, celebração da vida, fotografia é captar a luz e luz é energia.Num movimento duplo a fotografia celebra e lamenta a efemeridade da vida. Questionamentos próximos por serem mais existencialistas podem ser observados nos autorretratos de Jacques Henri Lartigue – alguns deles inclusive com o título: enquanto ainda tenho sombra -, Vivian Maier, Urs Luthi, e Francesca Woodman, por exemplo. Para além de um atestado biográfico, muitos artistas incluem autorretratos em sua obra para falar mais do outro do que de si mesmos, e nesse sentido, nada melhor do que Cindy Sherman para exemplificar.

Em minha produção, o autorretrato é encarado de forma bastante expandida. Alguns dos meus autorretratos, por exemplo, incluem na imagem outras pessoas além de mim, geralmente amigos, e também considero nesta categoria os retratos que foram pensados e encenados por mim, mas que foram clicados por outra pessoa.

Cor Incidente 025

Imagem – AUTORRETRATO COLORIDO –COR INCIDENTE, 2007.

 

Neste autorretrato duas amigas aparecem. O cenário, os figurinos, a pose, a iluminação e a captação foram idealizados por mim, porém não apareço sozinha e nem fiz sozinha o disparo neste caso. Meus amigos também são encarados aqui como parte de mim, da minha existência. Creio que este retrato tenha uma intencionalidade mais falsa e ficcional do que os próximos, ele está no âmbito da encenação, que não faz apenas parte da arte, mas está em quase tudo na vida.

 

1. Autorretrato Rochele Tratadas 2. Autorretrato Rochele Tratadas 3. Autorretrato Rochele Tratadas 4.Autorretrato Rochele Tratadas 5.Autorretrato Rochele Tratadas 6.Autorretrato Rochele Tratadas 7.Autorretrato Rochele Tratadas 8.Autorretrato Rochele Tratadas 9.Autorretrato Rochele Tratadas 10.Autorretrato Rochele Tratadas

Imagem – AUTORRETRATOS Em PRETO E BRANCO, Sem título 2010.

 

 

Como mostrar através da fotografia as dificuldades da alma? Esta série de autorretratos provavelmente seja uma das mais importantes para mim. Nesta época eu me sentia vazia, sem energia, estava mesmo muito mal… Como a fotografia não serve apenas para cristalizar os bons momentos, mas sim todos aqueles que devem ser lembrados, tentei registrar nestes autorretratos aquilo que eu senti, eternizar também o sofrer, mas como forma de transformação, de sublimar o sentimento. Alguns podem encará-la como uma série simples ou até mesmo tecnicamente errada, cheia de desfoques e cortes esquisitos, mas busquei exatamente essa estética, pois era assim que eu me sentia naquele momento. Como esses autorretratos são bastante intimistas eu preferi trabalhar sozinha, apenas eu e a câmera, em um fundo infinito, encerrados no estúdio finito.

 

 

Olhando elas novamente agora, acho que as fotografias nos encaram sim como sendo fantasmas do nosso próprio passado.

 

 

 

 

 

Rochele Zandavalli, Porto Alegre, abril de 2014.

A Força do Tempo de Ricardo Chaves.

Abriu nesta terça-feira, dia 06 de maio a exposição “A Força do Tempo” de Ricardo Chaves, mas conhecido como Kadão,  um dos mais importantes e respeitados fotojornalistas do Brasil. Nesta mostra fotográfica que encerra a programação do 7° Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre podemos ver a história recente contada a partir das imagens clicadas por este grande fotógrafo que possui uma carreira de mais de 40 anos.

 

Aiyrton Senna

Foto: Ricardo Chaves/ Arquivo Pessoal

 

Além de fotografias clássicas que estamparam capas de grandes jornais e revistas, um mural com centenas de retratos em 10×15 colocam lado a lado imagens de Ayrton Senna, Zé do Caixão, Chico Buarque (de sunga), Carlos Santana, Fidel Castro e Caetano Veloso. Neste mural de personalidades ainda podemos encontrar Richard Avedon ao lado de Renato Aragão, mais conhecido como Didi Mocó.

A exposição do Kadão tem que ser vista a passos lentos.

Ricardo Chaves (Kadão) Foto: Danilo Christidis

 

A Força do Tempo -  7° Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre

Visitação: 7 de maio a 1 de junho (às segundas, das 14h às 19h, de terças a sextas, das 10h às 19h, e sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h).
Local: Casa de Cultura Mario Quintana – Rua dos Andradas, 736, 6º andar, Porto Alegre.
Informações: (51) 3221-5900.

 

 

 

Brizola – Foto: Ricardo Chaves

Cacique Raoni e Sting – Foto: Ricardo Chaves